Ditos populares

Ditos populares

Os ditos populares são expressões que usamos para explicar de maneira simbólica as situações pelas quais passamos. Muitos deles são variações de expressões antigas, jargões populares que já tanto fazem parte de nosso vocabulário e nem nos damos conta de que, em outro momento, tinham um significado completamente diferente. Conheça a origem de alguns dos ditos populares mais comuns de nossa língua.

santo do pau ocoSanto do pau oco
– Quando uma pessoa passa a imagem de ser correta, mas acaba mostrando que não é, costumamos dizer que é um “santo do pau oco”.
– Nos século XVIII e XIX os contrabandistas de ouro em pó, moedas e pedras preciosas utilizavam estátuas de santos ocas por dentro. O santo era “recheado” com preciosidades roubadas e enviado para Portugal.

 

queimar as pestanasQueimar as pestanas
– Durante muito tempo, antes da chegada da eletricidade, a principal fonte de iluminação eram as velas. Como não iluminavam muito, para ler, por exemplo, era necessário colocar bem perto para enxergar e não era raro acabar queimando as pestanas (cílios).
– A expressão hoje é usada para falar de alguém que tem que ler ou estudar muito.

 

MAOS ABANANDOCom as mãos abanando
–  A expressão vem do início do século passado, época de grande imigração no Brasil. Muitos estrangeiros que chegavam e buscavam trabalho no campo tinham suas próprias ferramentas.
– Para os donos das terras, aqueles que chegavam sem nada, de mãos vazias (abanando), pareciam não querer saber de trabalho e acabavam sendo menos favorecidos na hora da contratação.

cair no conto do vigarioCair no conto do vigário
– Ser enganado por algum vigarista.
– Duas igrejas em Ouro Preto receberam um presente: uma imagem de santa. Para verificar qual da paróquias ficaria com o presente, os vigários resolveram deixar por conta da mão divina, ou melhor, das patas de um burro. Exatamente no meio do caminho entre as duas igrejas, colocaram o tal burro, para onde ele se dirigisse, teríamos a igreja felizarda. Assim foi feito, e o vigário vencedor saiu satisfeito com a imagem de sua santa. Mas ficou-se sabendo mais tarde que o burro havia sido treinado para seguir o caminho da igreja vencedora. Assim, até hoje a expressão é sinônimo de ser vítima de golpes e vigaristas.

lagrimas de crocodiloLágrimas de crocodilo
– Esta expressão, que quer dizer choro fingido, falso. Vem da própria natureza do crocodilo. Quando ele come, o alimento pressiona o céu da boca e comprime suas glândulas lacrimais.
– Por isso, enquanto devora sua presa, o crocodilo chora. Mas isso não tem nada a ver com emoção ou dor. Por isso, a expressão dá a ideia de choro de mentira, sem sentimento.

arroz de festaArroz de festa
– Todo mundo tem aquele amigo que não perde uma festinha, que está em todo evento, o famoso “arroz de festa”. Esse dito vem do costume de jogar arroz nos noivos após a cerimônia, como símbolo do desejo de prosperidade para o novo casal.
– Também era comum, nos casamentos portugueses, ter vários pratos preparados com o grão, assim, arroz de festa é o que esta em todas.

casa direneCasa da mãe Joana
– Um lugar sem regras, onde se faz o que quiser, é para nós a “casa da mãe Joana”. Há duas versões para a origem da expressão. A primeira teria se passado na época do Segundo Império do Brasil. Os homens importantes se encontravam nos bordéis cariocas e um dos preferidos era de uma senhora chamada Joana. A segunda teria vindo da época do reinado de Joana, rainha de Nápoles e condessa de Provença (1326-1382). Ela teria autorizado o funcionamento dos prostíbulos em Avignon, que passou a se chamar “paço de mãe Joana”. No Brasil, ficou “casa da mãe Joana”.

elefante brancoElefante branco
– Costumamos dizer que algo grande, sem utilidade e que atrapalha é um elefante branco.
– A ideia vem de um antigo hábito do rei de Sião (onde hoje é a Tailândia) que costumava dar um elefante branco aos súditos que tinham problemas, como uma forma de benção. Como o elefante é um animal sagrado em sua cultura, não podiam usar o animal para trabalhar e nem vender, já que era um presente do rei.
– Restava ao “felizardo”, cuidar e alimentar o animal, sem que este servisse para nada mais que ocupar espaço e dar trabalho.

feito nas coxasFeito nas coxas
– Algo mal acabado, feito de qualquer jeito, é o que chamamos de “feito nas coxas”.
– A expressão vem do período da escravidão no País, época em que as telhas de barro eram feitas manualmente. Quem as fabricavam eram os escravos que moldavam a argila sobre as coxas das pernas para dar forma. Por isso, as telhas não ficavam exatamente iguais, já que cada pessoa tem as coxas de um tamanho diferente, mais especializados, passaram a fazer lotes com o nome da pessoa, no caso estas passavam a ter um valor comercial melhor.

de pequenino se torce o pepinoDe pequenino é que se torce o pepino
– A educação deve ser uma prioridade enquanto as crianças são pequenas.
– É normal que apareçam uns “olhinhos” (pequenas deformações) no pepino quando ele começa a crescer e, para dar melhor aspecto ao legume, os agricultores costumam cortar estas partes, que deixam a planta feia e podem alterar seu sabor.
A expressão acabou sendo associada à educação das crianças, querendo dizer que, desde pequenos, temos que ensinar valores e ajudar a formar um bom caráter.

pior cego nao quer verO pior cego é o que não quer ver
– Diz-se da pessoa que não quer ver o que está bem na sua frente. Nega-se a ver a verdade.
– Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D’Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imagina era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver.

andar a toaAndar à toa
Andar sem destino, despreocupado, passando o tempo.
–  “Toa” é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está “à toa” é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar. Uma mulher à toa, por exemplo, é aquela que é comandada pelos outros. Jorge Ferreira de Vasconcelos já escrevia, em 1619: Cuidou de levar à toa sua dama.

onde judas perdeu as botasOnde judas perdeu as botas
Lugar longe, distante, inacessível.
– Como todos sabem, depois de trair Jesus e receber 30 dinheiros, Judas caiu em depressão e culpa, vindo a se suicidar enforcando-se numa árvore. Acontece que ele se matou sem as botas. E os 30 dinheiros não foram encontrados com ele. Logo os soldados partiram em busca das botas de Judas, onde, provavelmente, estaria o dinheiro. A história é omissa daí pra frente. Nunca saberemos se acharam ou não as botas e o dinheiro. Mas a expressão atravessou vinte séculos.

da pa viradaDa pá virada
– Um sujeito da pá virada pode tanto ser um aventureiro corajoso como um vadio.
– Mas a origem da palavra é em relação ao instrumento, a pá. Quando a pá está virada para baixo, voltada para o solo, está inútil, abandonada decorrentemente pelo homem vagabundo, irresponsável, parasita. Hoje em dia, o sujeito da “pá virada”, parece-me, tem outro sentido.

nhenhenhemNhenhenhém
– Conversa interminável em tom de lamúria, irritante, monótona. Resmungo, rezinga.
– “Nheë”, em tupi, quer dizer falar. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, eles não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer “nhen-nhen-nhen”.

paqueteEstar de paquete
– Situação das mulheres quando estão menstruadas.
– “Paquete”, já nos ensina o Aurélio, é uma das denominações de navio. A partir de 1810, chegava um paquete mensalmente, no mesmo dia, no Rio de Janeiro. E a bandeira vermelha da Inglaterra tremulava. Daí logo se vulgarizou a expressão sobre o ciclo menstrual das mulheres. Foi até escrita uma “Convenção Sobre o Estabelecimento dos Paquetes”, referindo-se, é claro, aos navios mensais.

pensando na morte da bezerraPensando na morte da bezerra
– Estar distante, pensativo, alheio a tudo.
– Esta é bíblica. Como vocês sabem, o bezerro era adorado pelos hebreus e sacrificados para Deus num altar. Quando Absalão, por não ter mais bezerros, resolveu sacrificar uma bezerra, seu filho menor, que tinha grande carinho pelo animal, se opôs. Em vão. A bezerra foi oferecida aos céus e o garoto passou o resto da vida sentado do lado do altar “pensando na morte da bezerra”. Consta que meses depois veio a falecer.      patavinas  Não entender patavina
– Não saber nada sobre determinado assunto. Nada mesmo.
– Tito Lívio, natural de Patavium (hoje Pádova, na Itália), usava um latim horroroso, originário de sua região. Nem todos entendiam. Daí surgiu “i Patavinismo”, que originariamente significava não entender Tito Lívio, não entender patavina.

sem eira nem beiraSem eira nem beira
– Pessoas sem bens, sem posses.
– “Eira” é um terreno de terra batida ou cimento onde grãos ficam ao ar livre para secar. “Beira” é a beirada da eira. Quando uma eira não tem beira, o vento leva os grãos e o proprietário fica sem nada.? Aqui na região nordeste este ditado tem o mesmo significado, mas outra explicação. Dizem que antigamente as casas das pessoas ricas tinham um telhado triplo: a eira, a beira e a tribeira como era chamada a parte mais alta do telhado. As pessoas mais pobres não tinham condições de fazer este telhado triplo, então construíam somente a tribeira ficando assim “sem eira nem beira”.

vai se queixarVá se queixar ao bispo
– Como quem manda ir se queixar de algum problema a outra pessoa.
– No tempo do Brasil colônia, por causa da necessidade de povoar as novas terras, a fertilidade na mulher era um predicado fundamental. Em função disso, elas eram autorizadas pela igreja a transar antes do casamento, única maneira de o noivo verificar se elas eram realmente férteis. Ocorre que muitos noivinhos fugiam depois do negócio feito. As mulheres iam queixar-se ao bispo, que mandava homens atrás do fujão.

ficar a ver naviosFicar a ver navios
– Esperando algo que não aconteceu ou não apareceu. Esperar em vão.
– O rei de Portugal, Dom Sebastião, morreu na batalha de Alcácer-Quibir, mas o corpo não foi encontrado. A partir de então (1578), o povo português esperava sempre o sonhado retorno do monarca salvador. Lembremos que, em 1580, em função da morte de Dom Sebastião, abre-se uma crise sucessória no trono vago de Portugal. A consequência dessa crise foi a anexação de Portugal à Espanha (1580 a 1640), governada por Felipe II. Evidentemente, os portugueses sonhavam com o retorno do rei, como forma salvadora de resgatar o orgulho e a dignidade da pátria lusa. Em função disso, o povo passou a visitar com frequência o Alto de Santa Catarina, em Lisboa, esperando, ansiosamente, o retorno do dito rei. Como ele não voltou, o povo ficava apenas a ver navios.

dourar a pilulaDourar a pílula
– Melhorar a aparência de algo.
– Vem das farmácias que, antigamente, embrulhavam as pílulas em requintados papéis, para dar melhor aparência ao amargo remédio.

a voz do povoA voz do povo, a voz de Deus
– Essa tá óbvia. Quem realmente sabe das coisas é o povo.
– As pessoas consultavam o deus Hermes, na cidade grega de Acaia, e faziam uma pergunta ao ouvido do ídolo. Depois o crente cobria a cabeça com um manto e saía à rua. As primeiras palavras que ele ouvisse eram a resposta a sua dúvida.

chato de galochasChato de galocha
– Pessoas muito chatas, resistente e insistente.
– Infelizmente, os chatos continuam a existir, ao contrário do acessório que deu origem a essa expressão. A galocha era um tipo de calçado de borracha colocado por cima dos sapatos para reforçá-los e protegê-los da chuva e da lama. Por isso, há uma hipótese de que a expressão tenha vindo da habilidade de reforçar o calçado. Ou seja, o chato de galocha seria um chato resistente e insistente, explica Valter Kehdi, professor de Língua Portuguesa e Filologia da Universidade de São Paulo. De acordo com Kehdi, há ainda a expressão chato de botas, calçados também resistentes, o que reafirma a ideia do chato reforçado.

o arco da velhaDo arco-da-velha
– Coisas do arco-da-velha são coisas inacreditáveis, absurdas.
– Arco-da-velha é como é chamado o arco-íris em Portugal, e existem muitas lendas sobre suas propriedades mágicas. Uma delas é beber a água de um lugar e devolvê-la em outro – tanto que há quem defenda que “arco-da-velha” venha de arco da bere (”de beber”, em italiano).

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Outros significados incríveis
– Veja se você conhece as origens? Ou, se sabe como ele seria, se usado  corretamente…

“Quem tem boca vai a Roma”
– O correto seria: “Quem tem boca vaia Roma”. (do verbo vaiar).

“Esse menino não para quieto, parece que tem bicho carpinteiro”
– O correto seria: “Esse menino não para quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro”.

“Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão”
– O correto seria: “Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão”.

“Cor de burro quando foge”
– O correto seria: “Corro de burro quando foge!”

“Cuspido e escarrado” (alguém muito parecido com outra pessoa)
– O correto seria: “Esculpido em carraro”. (tipo de mármore)

“Quem não tem cão, caça com gato”
– O correto seria: “Quem não tem cão, caça como gato”. (ou seja, esgueirando, astutamente, traiçoeiramente).

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